sábado, 14 de janeiro de 2017

Resposta abera a Felipe Pacheco

Caro Felipe, resolvi escrever esta resposta aberta a você porque me identifiquei muito com as suas palavras.

1. Contexto

Para dar um pouco de contexto à minha resposta vou-lhe explicar que comecei a mudar de país as 6 anos de idade. Não sou brasileiro mas cresci no Brasil. Morei lá em duas ocasiões, da primeira vez foram 9 anos (1979 – 1988) a da segunda 8 anos (2006 – 2016).

Desde que nasci em 1971 a minha vida foi assim:

  • 1971 a 1977 – Portugal
  • 1977 a 1978 – Guiné Bissau
  • 1978 a 1979 – Portugal
  • 1979 a 1988 – Brasil
  • 1988 a 2000 – Portugal
  • 2000 a 2005 – Holanda
  • 2005 a 2006 – Portugal
  • 2007 a 2007 – Brasil
  • 2007 a 2008 – Reino Unido
  • 2008 a 2016 – Brasil
  • 2016 até agora – Irlanda

2. O que fazer

O que eu aprendi nessas minhas várias mudanças que ameniza a sensação de morrer e voltar à vida é a rotina. O trabalho diário é o que mais ajuda, mas tem que ser um trabalho onde possa conviver com as pessoas, falar, debater ideias, rir, todos os ingredientes de uma vida social normal.

Como você fala, - “Você não perde só o chão, você perde as paredes, o teto, tudo.” - Isso é bem verdade e é por isso que vai ter que reconstruir a sua vida social. Somos seres sociáveis, necessitamos uns dos outros, é esse vazio nos dá uma sensação ruim. Tenha a certeza de que a única coisa da qual você necessita não são as paredes e o teto mas, sim as suas próprias pernas. Levante a cabeça, reconstrua-se, reinvente-se, essa é uma oportunidade única para se reinventar, afinal ninguém te conhece então apresente-se como um novo Felipe.

O trabalho e a construção de um novo circulo de amigos funcionou muito bem comigo. Outra coisa que aprendi é que esse período de maior isolamento social pode ser usado para estreitar os laços matrimoniais com a sua esposa, afinal vocês são a única referência social que têm por perto.

Um subproduto muito bom de se morar fora ou pelo mundo é que todas essas novas experiências, sejam elas culturais, linguísticas, profissionais, etc, enriquecem-nos muito, nos tornam mais fortes, mais capazes, e melhores pessoas, porque temos a tendência de extrair para nós o melhor de cada cultura.

3. A volta

Quando finalmente volta a viver (e não de férias), em casa, vai passar por algo muito parecido, voltar para casa depois de uns anos é como mudar de país, porque tudo o que você deixou para trás, quando voltar estará diferente. Nos anos em que você esteve fora você mudou e as pessoas em casa também. Tudo estará diferente, os lugares, as pessoas, as regras, tudo. Até a relação com os seus familiares mais próximos muda, menos, mas muda.

4. O que nunca vai mudar.

A sensação que você descreve nunca muda, não interessa quantas vezes você mude de país ou para que país vá. Disso você pode estar certo.

Você pode voltar aos mesmos lugares, mas nunca vai poder voltar no tempo. O contexto que nos envolve só existe em um determinado espaço e tempo. Podemos voltar ao mesmo lugar, mas não ao mesmo tempo. Aí tudo mudou e mesmo reconhecendo as pessoas e alguns lugares você vai se sentir um peixe fora d’água, como agora.

O que sobra é fazermos a nossa vida por nós e para nós, e ser feliz com o que conquistamos.

Espero que o ajude. Boa sorte e sucesso.

Abraços

João

PS: O texto original do Felipe pode ser encontrado aqui: http://felipe-pacheco.blogspot.ie/2017/01/sai-do-brasil-e-morri.html